Sementes - O primeiro curso de Jornalismo de Minas Gerais

Dias têm 24 horas. Isso não quer dizer que todos eles sejam iguais. O dia 27 de março de 1957, por exemplo. Certamente ao se despedirem daquele verão as Irmãs Dominicanas proprietárias da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino renovavam o quadro da instituição colocando a data no patamar de dias históricos. Há 53 anos um presidente mineiro fixava sua chancela à esquerda da assinatura de Clóvis Salgado, tratava-se do decreto número 41.212 e a partir de então, ficava a Fista autorizada a colocar em funcionamento os cursos de matemática, física, química, história natural, ciências sociais e jornalismo.

É ao último deles que quero me ater. O curso de jornalismo de Uberaba, apesar das mudanças, é o mesmo desde que esse decreto foi assinado por Juscelino Kubitscheck naquele outono.

Diz uma manchete do jornal “Correio Católico”: Uberaba se antecipa à capital e abre um curso de Jornalismo. O lead a seguir explicava as exigências do Ministério de Educação e Cultura para concorrer ao vestibular do primeiro curso de Jornalismo do Estado de Minas Gerais.

O pioneirismo das dominicanas da Fista explica-se pela afirmação dos professores da época, Padre Prata, Irmãs Patrícia e Loreto: “Uberaba precisava de bons jornalistas”.

Vividos 53 anos, o curso de jornalismo é hoje uma habilitação da Comunicação Social sob a batuta da Universidade de Uberaba, herança do Prof. Mário Palmério que em 1981 adquiriu toda a estrutura acadêmica da Fista provendo a fusão da instituição com sua Fiube – Faculdades Integradas de Uberaba. Entre as dominicanas, é possível encontrar arrependimento do feito, lamentos, saudade. Vê-se também o orgulho em saber que a ação tornou possível a continuidade. O curso de jornalismo tinha nova fotografia. Uma turma ingressou na Fista e se formou na Fiube pagando bem mais pela mensalidade e em troca testemunhavam a construção de um laboratório de fotografia, de estúdios de rádio e TV... de um universo.


Não tardou e a Fiube se transformou em Universidade de Uberaba. O DNA da Uniube guardava resquícios da greve mal sucedida dos professores que tentaram invadir a rádio do curso de jornalismo e fazer do local o comando da greve, os mestres só não o fizeram graças à barreira sensata imposta por outro mestre, Décio Bragança. Há também moléculas do humanismo e do espírito revolucionário das dominicanas.

O curso de jornalismo, como parte desse novo universo, ganhou ares de academia. A chegada do Professor Edvaldo Pereira Lima, em 1998, trazia a implantação de novos conceitos para novos tempos da profissão. A implantação do Jornalismo Literário Avançado não foi nenhuma unanimidade festejada. Houve cortes. Houve quem não soube explicar a novidade importada da USP e houve quem não quis entendê-la. Fato é que o ensino do jornalismo em Uberaba passaria a colocar no mercado profissionais dispostos a esgotar vários vieses de uma mesma notícia. Profundidade. Imersão. Entrega.

Temporada em que, além do Ipiranga, ouviram falar de Uberaba. O curso de jornalismo ganhava um novo idioma. Um castelhano em português que transcendia às palavras. O Professor Raul Osório Vargas veio formar seguidores de um “jornalismo-ferrari”, e formou aos montes. Teve também quem não gostasse, é claro. Mas Raul deixou uma importante marca ao perfil do curso para o futuro. Futuro, aliás, que atende pelo nome de André. Azevedo da Fonseca é o diretor do curso nesse aniversário de 53 anos. Tem a missiva de rejuvenescer o mercado da região, tão facilmente influenciado pelos profissionais saídos da Uniube.

Não foram poucos os personagens dessa história de vida, cada um com seu capítulo particular. Uma história bordada de ouro cuja maior honra, e obrigação, é poder continuar a ser escrita. Sementes férteis essas plantadas pelas dominicanas.

*Mais tarde, o livro passou a se chamar "Memórias e personagens do primeiro curso de jornalismo de Minas Gerais; por sugestão do professor André Azevedo da Fonseca.

Comentários

Excelente texto! É um orgulho saber que você e todos esses alunos brilhantes também fazem parte dessa história!
Gabriela Brito disse…
Jotaaaaaaaaaaaaa
To louca pra saber mais dessa história! Quando o livro tiver pronto vou querer ler tudo.... Vai ser bom saber de onde "nós viemos", como que nosso curso virou o q é hoje! Amei o texto!
joshua disse…
Parabéns pelo belíssimo blogue!

PALAVROSSAVRVS REX